Desde o início dos realities shows pelo mundo que a discussão existe: um lado diz que quem assiste a este tipo de programação é "alienado", enquanto outro lado defende a liberdade de escolha em assistir ao que quiser e a se entreter com programas do gênero. Mas a discussão voltou a ficar acirrada após um vídeo que circula na internet em que um homem é questionado sobre o programa por um repórter da rede Globo. O homem, então, diz que não assiste ao programa porque seu nível cultural não é compatível com o da grande maioria da programação da Globo. Afinal de contas, tem algum problema em assitir Big Brother Brasil?
Sim e não. Vejamos o porquê de tal "relativismo".
A maior crítica feita aos programas de entretenimento (não somente os televisivos) é a da falta de conteúdo positivo agregado. Subentende-se como conteúdo positivo agregado algo que engrandesça o intelecto de alguém. Tal concepção geralmente está ligada ao mundo das ciências e das artes clássicas, que pregam a necessidade humana de aprender e de apreciar aquilo que é "realmente bom". E evidentemente que os programas de entretenimento da televisão não se enquadram em tais exigências. Mas até que ponto tais exigências são válidas?
Aí depende de quem assiste aos programas. Sob uma teoria marxista/pessimista/crítica, diz-se que, tudo que é cultural e que sofreu processo industrial para sua transformação e consequente venda, é vazio para a humanidade e prejudicial ao desenvolvimento social, porque isso facilitaria, em tese, a dominação da burguesia sobre as outras classes, acomodadas com tais programas. O resultado seria um descontrole da vida pública por parte dos governantes e um aumento da exploração do trabalho por parte dos capitalistas. É a famosa teoria do pão e circo, e se enquadram aqui tudo que é de massa: música popular, futebol, carnaval, novelas e o Big Brother Brasil. Mas há um pequeno porém nisso tudo.
A "alienação" imposta pela classe dominante, o falso conforto, não afeta a todos da mesma maneira: aqueles cientes de tudo isso podem muito bem estarem a par da realidade e assistirem a esse tipo de programa que não estará, necessariamente, se "alienando". Assistir a esse tipo de programas se torna um problema quando, realmente, as pessoas vivem somente disso: tornam a vida real uma exceção, e o mundo do entretenimento, suas próprias vidas. Alguns sociólogos dizem que estamos entrando numa fase em que o cotidiano está se sobrevalendo sobre as outras relações sociais, que as classes estão se dissolvendo e que o mundo está se tornando pós-moderno. Isso quer dizer, em tese, que é normal que as pessoas vivam do jeito que vivem,diminuindo a importância das macroestruturas sociais reguladoras e elevando a importância de uma massa criativa, artística e conservadora, que aceita como natural a ordem do mundo vigente, o que garante a subimportância das macroestruturas sociais.
Portanto, meus queridos, para quem possui uma tendência conservadora/burguesa/reacionária/de média classe, é totalmente normal e aceitável assistir à programação da rede Globo e a considerar o Jornal Nacional como o "melhor jornal da televisão brasileira". Mas, para todos que são um tanto esquerdistas/marxistas/anarquistas, tudo isso é prejudicial e de baixo nível cultural. O Big Brother Brasil seria essencialmente um problema se fosse ruim para todos sob todos os pontos de vista. Mas não é. Sob um viés pós-modernista, as pessoas não veem problemas em serem dominadas, em serem "alienadas". Portanto, não há problema em se "alienar", não há problema em se "entreter", também.
Viram? É simples! Agora deixem as pessoas se alienarem em paz. Só não reclame, depois, se sua escola for de má qualidade, se o posto de saúde estiver superlotado, ou se o transporte público for caro e ineficiente, ok? Ah, e não se esqueça de comprar a Veja na banca da esquina, ou de assistir ao Fantástico para ficar a par do desenvolvimento científico e tednológico no mundo.

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