sexta-feira, 1 de março de 2013

Opinião: A Incapacidade técnica e moral da imprensa brasileira.

  Nos últimos dias, a venda dos ingressos dos shows das cantoras estadunidenses Lady GaGa e Madonna foram um dos assuntos que tomou conta da internet e da mídia brasileira. Nas redes sociais, as piadas foram constantes: a incapacidade das cantoras em venderem seus ingressos na sua totalidade foi o estopim para que ambas virassem motivo de chacota entre fãs de outras cantoras.
  No campo midiático, o assunto entrou em pauta justamente por causa das constantes gozações nas redes sociais. Após isso, os chamados "formadores de opinião", nossos queridos jornalistas brasileiros, aqueles que fizeram 4 anos árduos do curso de comunicação social para representar os Alfredinhos de todo o Brasil no campo dos media, se interessaram em falar também sobre os fracassos de vendas de ambas as cantoras. Estariam elas fora de seus tempos? A data de validade desses produtos estariam vencidas, indagam os jornalistas.
  Como sempre ocorre na mídia brasileira, tomada pela sede de poder e de autoridade, acima de tudo e de todos, acima da lei, do Estado e, até em alguns casos, acima de Deus, dentro de suas instituições sabe-se de tudo. Dentro da Globo, da Abril, da Record, dentro da Band, dentro das redações de jornais e de rádios de todo o país, é dentro deles que está o conhecimento. Eles sabem. Nós não.
  Por que as cantoras fracassam nas vendas? Ora, se Lady GaGa, por exemplo, deveria ter vendido 90 mil ingressos no Rio de Janeiro mas vendeu metade ou menos, só pode ser porque seu show não é bom, suas maluquices não agradam mais, seus fãs estão deixando de ser estranhos. A imprensa diz que sabe o porquê. A imprensa entende o porquê. A imprensa nos explica.
  A imprensa nos explica porque a imprensa diz o que nós queremos ler e ouvir. A imprensa representa a ideologia da classe média brasileira, a ideologia dos Alfredinhos, daqueles que, desprovidos de poderes políticos e econômicos, precisam dar "o ar de suas graças" em algum lugar. Dão o ar de suas graças no campo ideológico. Para eles, nada está bom. Está tudo errado. "Ela está gorda". "Ela faz playback", "Ela está muito velha para estar em cima de um palco" ou, simplesmente, "Ela é estranha". A classe média prefere "música de verdade. Beatles, MPB, U2". A classe média prefere aqueles que "produzem as suas músicas. Esses sim são artistas". Se é belo é gay. Se é feminino é gay. Se usa calças justas, é gay. Se tenta trazer à tona aquilo que tocava nos tempos de ditadura, é plágio. Os tempos bons são os tempos passados, hoje tudo está ruim. Os outros são todos burros, alienados. E a imprensa sabe o porquê de tudo isso. Não é a toa que Veja ainda é a mais lida revista do país. Não é a toa que o Jornal Nacional é referência. O Globo, Folha de São Paulo, todos muito lidos. "Tem que ler jornal se quiser passar no ENEM". Tem que ler jornal porque os jornalistas sabem. Os jornalistas comunicam. Você não sabe, você não informa, você não comunica. Você só sente.
  "Eles não sabem de nada, por isso vão a esses shows. Não tem explicação, eles são alienados porque 'sentem' amor pelas cantoras". Nós só sentimos, eles sabem de tudo. Porque os Alfredinhos são os donos do mundo.
  Burros. Mal sabem que são motivo de chacota por aqueles que realmente sabem.

Artigo de opinião escrito em 10 de Novembro de 2012.

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