Subentende-se como identidade social, análogo ao conceito de
identidade individual, como o conjunto de características históricas
geradas por fatores sociais de um grupo que interage de modo intrínseco a
seu espaço de interação. Nesse caso específico, seria melhor uma
conceituação de um espaço social ou, no nosso caso estritamente, de
ciberespaço social.
Assim como uma sociedade humana se
desenvolve, constrói e reconstrói seu espaço geográfico, no caso dos
grupos do ciberespaço o padrão parece ser o mesmo. Nos últimos 15 anos o
mundo virtual viu a criação e popularização do que hoje chamamos de
redes sociais. Como o próprio nome diz, nas redes sociais, “anula-se” o
tempo e o espaço de uma maneira nunca antes experimentada pela
humanidade.
Entre as interações entre sociedade e espaço, é
mister considerarmos o Possibilismo como condutor de nosso raciocínio.
De acordo com o Possibilismo, o homem não é determinado pelo ambiente a
sua volta, mas sim o espaço a sua volta serve de base para as diversas
possibilidades de vida que o homem pode passar a ter. Tal padrão
geográfico se estenderia, então, ao ciberespaço, mas sabemos que isso
não ocorre. Por quê?
Diferentemente do espaço, que é construído
pela sociedade como um todo, o ciberespaço é projetado para
determinados fins e, portanto, é pré-determinado para ser ocupado por um
grupo de pessoas, denominadas membros. Ora, se o ciberespaço não é
construído nem desconstruído pelos seus membros, temos de primeira, a
impossibilidade de adaptação espacial e de expansão, salvo nos casos em
que o responsável pelo desenvolvimento do ciberespaço está apto a
fazê-las. É uma questão de poder e de infraestrutura, mas que se limita a
casos muito específicos, como por exemplo, fóruns em que não são
cobradas tarifas para manutenção.
Voltando nossos olhares para a
questão da identidade social, além da condicionante espacial, que
determina, no caso do ciberespaço em função de sua estrutura, como se
comportarão e se condicionarão seus membros, temos também a questão do
tempo.
Se o tempo é a dimensão da mudança, do movimento, da
História, o espaço é a dimensão do presente, do agora, das relações,
construções e desconstruções. As características de cada membro que,
aliadas a todas as variáveis, formam a identidade do grupo, junto das
ações e acontecimentos marcantes que ocorreram dentro do espaço
onde ocorrem as relações sociais do grupo em questão, formam a História
do grupo. A identidade que o grupo possui no presente e se manifesta
como ações no espaço está intrinsecamente ligada à história de tal
grupo. Portanto, apagar a história de um grupo, ou deixa-la de lado,
seria desconstruir a identidade de tal grupo.
A renovação de tal
identidade, no caso das sociedades humanas em geral, se dá por meio das
transmissões de costumes de geração em geração. No ciberespaço as
coisas não são muito diferentes: para que novos membros adquiram a
identidade do grupo, estes devem conviver periodicamente com os membros
que carregam em si fortes traços da identidade do grupo transmitindo,
assim, o modo de relações sociais dos membros antigos e que, por
ventura, viriam a deixar o ciberespaço ocupado, para os novos membros
que estariam a ocupar este mesmo ciberespaço. A partir do momento em que
novos membros passar a se relacionar com membros de baixos traços da
identidade do grupo, começa-se a desconstruir a identidade social por
falta de convívio com membros mais antigos e destacados.
No caso
da comunidade Britney Spears Zone, reconhece-se que a identidade da
comunidade está em seus membros, em seu ciberespaço e em seu nome.
Quando a mesma, de identidade já enfraquecida, entra em contato com
membros de outro ciberespaço independente e construído, começa a ter sua
identidade permanentemente perdida no novo ciberespaço, tendo, então,
somente sua identidade trancada na história, presa na dimensão do tempo,
mas perdida na dimensão do espaço, na dimensão do social. O mesmo
aconteceria, no caso de uma fusão ordenada/planejada e consentida, com o
outro grupo. Ainda mais nesse caso específico, em que seria criado um
novo ciberespaço, propiciando então um momento de nova construção de
identidade e de relações sociais. Nesse caso, é plausível que nenhum dos
nomes seja conservado, pois isso traria crise de identidade ontológica
em diversos momentos na dimensão do espacial.
Caso levarmos em
conta o objetivo do ciberespaço, que nesse caso específico, é propiciar
um espaço em rede que sirva de interações entre membros que se reúnem
por uma causa em comum, que seria o fanatismo pela cantora Britney
Spears, poderíamos dizer, a priori, que isso não traria muitas relações
com o fato da identidade se perder de acordo com o que fora
anteriormente dito. Parecem-me aplicáveis tais padrões a todo e qualquer
fórum de mesmo porte em toda a rede, seja ele fórum de fãs de um ator,
de jogos eletrônicos ou até mesmo fóruns de discussões intelectuais.
Ao trazermos de volta a reflexão feita sobre a estrutura do
ciberespaço, nesse nosso caso específico, a fusão estaria ocorrendo por
falta de um profissional webmaster. Evidência claríssima de que o
ciberespaço, aqui, influencia e muito nas condicionantes sociais do
grupo em questão. Algumas comodidades do ciberespaço, como o caso dos
quotes e dos emoticons, por exemplo, poderiam atrair ou até mesmo
afastar membros. Desconsiderar a questão da estrutura do ciberespaço
seria o mesmo que pensar em organizar um território e as pessoas nele
inseridas sem pensarmos no próprio espaço físico que compõe o
território.
Por último, para encerrar, é importante um parecer a
priori sobre as perspectivas de uma fusão. Ao longo da leitura do
artigo é possível constatar que uma das consequências mais gritantes
seria a perda da identidade de ambos os grupos envolvidos, criando,
automaticamente, uma nova identidade. Isso envolveria o ganho e a perda
de membros, e o processo se iniciaria quase que do zero. Outra
consequência inicial seria o conflito de ideias, pois, no caso dos dois
grupos, deve haver membros com fortes características, que são
incompatíveis entre os grupos, porém compatíveis com os membros de cada
um de seus respectivos grupos anteriores. Isso resultaria, em princípio,
em mudanças gerais de regulamento social, o que poderia causar ainda
mais conflitos por ser uma relação delicada de poder que não convém
tratarmos aqui.
Mas, para o caso de sermos um tanto pragmáticos,
é evidente que o fim dos grupos representa um novo começo, um começo
justificável justamente para evitar um fim eterno e permanente no
tempo-espaço. Essa pode ser a única chance que o grupo tem de, pelo
menos, não cair no esquecimento de sua própria história.
Artigo escrito em 26 de Junho de 2012, referente ao extinto fórum de fãs da cantora Britney Spears na internet, Britney Spears Zone.
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