Opinião, no senso comum, é um raciocínio de qualquer natureza de um indivíduo acerca de algo, expressa livremente. Nem sempre a opinião expressa uma verdade, e é comum àquele que dá uma opinião desconsiderar a verdade pois a opinião é algo subjetivo, é a crença que o indivíduo tem acerca da realidade, seria "a sua própria verdade", e essa seria, sim, para si válida.
A área do conhecimento humano que trabalha com a essência do raciocínio humano é a Filosofia. Na Grécia antiga, berço da cultura ocidental, havia um termo, utilizado pelo filósofo Platão, que representava um certo grau de conhecimento, relativo ao mundo sensível, de nome doxa, cuja tradução livre para o português moderno, seria opinião.
Para Platão, as coisas no mundo se mostravam não do jeito que eram em sua essência, mas sim como representação em si, o que hoje consideraríamos como uma aparência. Então, pelos sentidos humanos, seríamos capazes somente de obter conhecimento acerca do mundo sensível, conhecimento esse tido como opinião. Para alcançarmos o conhecimento real das coisas, num mundo inteligível - o mundo das ideias - , usaríamos da razão, e no final, obteríamos a epistéme, traduzido livremente como ciência.
Ao longo da história da Filosofia, há um debate acerca da capacidade humana de conhecer. Você provavelmente confie cegamente em seus sentidos. Por exemplo, se você sente cheiro de cebola, ou avista um avião no céu, você tem certeza, você acredita que, realmente, está cheirando uma cebola, ou está vendo um avião. Porém, para os filósofos, as coisas não são assim tão óbvias e cem por cento confiáveis. Pense, também, em quantas vezes seus sentidos o enganaram. Por exemplo, olhe para algum objeto que esteja a uma distância considerável de você e, utilizando somente de sua visão, meça seu tamanho. Após, compare a medição feita com o tamanho real do objeto, utilizando algum instrumento. Veja só, seus olhos lhe disseram uma coisa, mas na realidade, a coisa é outra!
Em Filosofia, teoria do conhecimento, ou gnosiologia, é a área que trata da capacidade humana em obter informação e conhecimento acerca de si mesmo e da realidade externa a si. Teoria da ciência, ou epistemologia, é a área que trata da capacidade da ciência como corpo de método em obter conhecimento acerca da realidade externa a nós. De acordo com a grande maioria dos filósofos contemporâneos, o estudo acerca da capacidade humana em conhecer é filosófico, e não empírico e, por isso, não é objeto de estudo de ciência alguma. O mesmo sobre a ciência: não há uma ciência da ciência. Estudar a prática científica é uma atividade filosófica.
De acordo com o filósofo Johannes Hessen, a Teoria Geral do Conhecimento lida com a possibilidade humana do conhecimento, a origem do conhecimento, a essência do conhecimento e os tipos de conhecimento, além do critério da verdade. A teoria do conhecimento influenciou diretamente as teorias acerca das práticas científicas, moldando o caminho para uma consolidação das teorias da ciência - a epistemologia.
Pois bem. De acordo com o que fora dito, é possível obter conhecimento sobre a realidade. Como quase tudo na Filosofia, isso é uma "aposta". Crê-se na capacidade humana em conhecer. Aliás, conhecimento é toda crença humana devidamente justificada. O que tudo isso tem a ver, então, com algum problema em relação à opinião?
Quando expressamos uma opinião, temos por intenção expressar algum tipo de interpretação pessoal da realidade, e tomamos isso como uma espécie de conhecimento acerca de tal realidade. Porém, uma opinião não reflete a realidade em sua essência. Uma opinião que expresse com certeza a realidade que a transcende deixa de ser opinião e passa a ser conhecimento.Como a humanidade não tem certeza absoluta daquilo tudo que sabe, opiniões nem sempre são mal-vistas. Uma opinião fundamentada pode representar a realidade, porém, sem sabermos que a mesma representa tal realidade. Portanto, a opinião, em sua essência, deixa de ser um problema. Ela passa a ser um problema em certas circunstâncias, que veremos a seguir.
Quando uma opinião é expressada por algum meio técnico, como a mídia, há um processo comunicativo, que deve transmitir a opinião para um público-alvo. Como a sociedade pós-moderna terceiriza a atividade racional, as pessoas tendem a absorver as informações que lhes são dadas como a esponja absorve a água. Ou seja, quando a opinião de alguém se refere a uma realidade inexistente, porém tecnicamente moldada para atingir a determinados fins, há, então, um primeiro problema com a opinião.
Quando uma opinião não é fundamentada, ou seja, é produzida de acordo com uma visão acrítica e não-metódica da realidade, há outro problema: são os famosos achismos. Para a lei, são inofensivos e o direito à livre expressão garante que tais opiniões sejam expressas. O problema é quando tais achismos formam opiniões alheias, como se aquilo refletisse a realidade como ela é. Aquilo que chamamos de senso comum nada mais é que um conjunto de "achismos" de uma sociedade culturalmente estabelecida, com suas normas, regras de conduta e crenças, passadas de indivíduo para indivíduo, de grupo para grupo. O conjunto desse saber é o senso comum. É notável a variação do senso comum dentro de uma mesma sociedade, principalmente entre as classes. No Brasil, o senso comum da classe média opera como ideologia, o que demonstra um outro problema da opinião: como uma classe violenta, reacionária e influente, a classe média impõe seu senso comum como ideologia nas práticas cotidianas, levando como dogmas aquilo que acreditam ser a verdade absoluta sobre a organização social e sobre a realidade. Parafraseando a filósofa Marilena Chauí, "de dia tem o sol, de noite tem a lua, e no resto do dia temos a classe média paulistana".
Tudo que fora apontado aqui está na beira de um abismo em direção a um reducionismo sobre o conhecimento humano que trata do próprio conhecimento. É importante salientar, porém, que opinião e verdade nem sempre coincidem, mas que isso também não seja um empecilho para que opiniões e verdades sejam debatidas. É assim que o conhecimento humano vem evoluindo ao longo de eras. Verdades ruindo e outras surgindo. Pense nisso quando for expressar uma opinião. O direito à liberdade de expressão deve ser utilizado com bom senso, afinal de contas, opinião não é algo totalmente inofensivo.
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